Foi um frisson aqui em casa quando “O Samba me Persegue”, dueto de Mariana Aydar e Zeca Pagodinho, começou a tocar em um disco que eu tinha gravado.
Minha mãe, num misto de surpresa e orgulho, gritou “João, corre aqui!”; meu pai acorreu para sala, e minha tia, que na época passava uns dias em casa, abriu um sorriso largo de reconhecimento. Cada um do seu jeito, o trio se admirava: “O Rafa tá ouvindo samba!”. O que, se por um lado é realmente uma surpresa, pro outro é parte de um processo realmente natural.
Filho da música pop dos anos 90, nunca dei muita atenção para a música brasileira ou para o que era mesmo música de qualidade: eu gostava mesmo era dos álbuns enlatados, das fórmulas engarrafadas, dos artistas fabricados, coisas assim. Não que seja exatamente ruim. Meu primeiro CD do tipo ainda está bem guardado e empoeirado na gaveta – ainda que, doze anos atrás, ele era carregado pra lá e pra cá, inclusive para as rodas de samba da família.
Bom, as discussões sobre o que ouvir começavam no caminho.
“Gente, dá pra por meu CD aí, por favor?”
“Não, hoje a gente vai ouvir o Zeca”
“Zeca? E o que é Zeca?”
“Um pagodinho”
Reprimido pela ordem dos pais e sem fones de ouvido, cresci ouvindo – em tropeços auditivos – os populares Leci Brandão, Jorge Aragão, Eliana de Lima, Martinho da Vila e os mais classudos Clara Nunes, Beth Carvalho, Roberto Ribeiro, Arlindo Cruz e Sombrinha, Noite Estrelada e Demônios da Garoa, além, é claro, do próprio Zeca Pagodinho.
“Reclamou a vida inteira do nosso sambinha e tá aí, ouvindo. Não pensei que fosse ver essa cena um dia, Rafa.” Ao meu histórico musical familiar juntou-se os versos de Mariana e Zeca, e eles responderam por mim: “O samba me persegue/E eu não vou negar”.
Em minha defesa, se é que preciso de uma, digo que Peixes Pássaros Pessoas não é um disco por inteiro de samba: Mariana Aydar parte daí, é verdade, mas também passeia pela MPB e por xotes divertidos. Logo, meus pais flagrarem o filho ouvindo a música mais assumidamente samba foi só uma coincidência boba. Porque, Mariana é bem mais que só samba.
Seguindo o caminho aberto por Vanessa da Mata – pois, convenhamos, as vozes femininas da música eram… masculinas – Mariana Aydar faz parte da excelente leva de cantoras de voz suave e letra bonita, como Fernanda Takai, Érika Machado, Thalma de Freitas, Nina Becker e, mais recentemente, Tiê.
2006 foi um ano importante para Mariana que, de acordo com muita gente, lançou o melhor disco de samba e MPB – um pouco de casa, vai – num todo de música boa.
Isso fica muito claro nas palavras bem versadas de “Florindo”, primeira faixa do disco; um discurso de consolo acolhedor, em tom amigável. É aqui que, facinho, Mariana nos faz companheiros dela, enxugando com doçura o pranto que o tempo pode causar.
A doçura dessa paulista também é vista na história “apenas amigos” ouvida na suave “Aqui em casa” (“Se eu te dou carinho é só pra ser bom/nunca passou de amizade”), se repete na fugidia “Pras bandas de lá” e permeia o restante do álbum, mesmo quando sensualmente Mariana resolve falar de um certo calor que vem e, subindo, a mantém acesa (“Beleza”).
Os maiores destaques enquanto letra estão em “Palavras” – uma escritora falando da própria tarefa com certa angústia – e em Tá?, que deixa bem claro, e com bom humor, que pra bom entendedor, meia palavra bas.
Apostando na interpretação, Mariana soa como a mulher madura que de fato é, provando que toda suavidade pode ser deixada de lado quando necessário. “Peixes Pássaros Pessoas”, faixa que dá nome ao disco, não só foi escrita com inteligentes analogias como é cantada com sufocada angústia por uma Mariana inconformada (e o grito abafado da cantora em determinado momento da música é simplesmente de arrepiar).
As faixas que restam servem para que o disco se encaixe mais no viés samba, fazendo com que meus pais estejam certos quando dizem que seu filho se rendeu aos prazeres do samba – e eu, claro, vou ter que aguentar piadinhas com isso por um bom tempo. Ainda bem que Mariana Aydar, cantora rara, vale o esforço.
Myspace da Mariana Aydar: http://www.myspace.com/marianaaydar
Opinião pública